Um ano de Olívia

Existem pensamentos que, quando os ouvimos pela primeira vez, não nos parecem propriamente novos. Pelo contrário, provocam uma sensação de reconhecimento, como se alguém finalmente tivesse encontrado as palavras para expressar algo que já habitava nosso interior.
Santo Agostinho, em sua obra A Verdadeira Religião, escreveu: “Não te dirijas para fora, regressa a ti mesmo; no homem interior habita a verdade.”
Essa passagem me faz pensar naquelas ocasiões em que uma leitura ou uma conversa desperta algo que já sentíamos, mas ainda não conseguíamos compreender inteiramente. Não porque possuamos todas as respostas dentro de nós, mas porque certas verdades, quando reconhecidas, parecem encontrar um lugar que há muito as esperava.
Hoje experimentei precisamente essa sensação.
Conheci uma passagem de Ortodoxia, obra do escritor inglês G. K. Chesterton, publicada em 1908. No capítulo intitulado A Ética do País das Fadas, o autor apresenta uma reflexão belíssima sobre as crianças, a repetição e a monotonia.
Chesterton observa que as crianças, quando descobrem uma brincadeira de que gostam, desejam repeti-la inúmeras vezes. Pedem que façamos tudo novamente, mesmo quando nós, adultos, já estamos cansados. Para ele, isso acontece porque possuem uma vitalidade abundante, um espírito livre e impetuoso, capaz de encontrar alegria nas mesmas coisas repetidamente.
Então, Chesterton apresenta uma possibilidade extraordinária: talvez Deus também ame a repetição.
Talvez, todas as manhãs, Deus diga ao sol que nasça novamente. Talvez faça o mesmo com a lua, todas as noites. E talvez todas as margaridas sejam semelhantes não por uma simples necessidade automática, mas porque Deus cria cada uma delas individualmente e nunca se cansa de fazê-las.
Em tradução livre, Chesterton escreve:
“Talvez Deus seja forte o bastante para exultar na monotonia.”
O autor conclui essa reflexão imaginando que Deus conserva eternamente o entusiasmo da infância, enquanto nós, pelo pecado, envelhecemos. Nas suas palavras, nosso Pai é mais jovem do que nós.
Fiquei profundamente tocado por essa percepção. E acredito que não poderia ter conhecido esse trecho em um dia mais oportuno.
Hoje, 23 de outubro, minha filha Olívia completa seu primeiro ano de vida.
Há exatamente um ano, Graziele e eu começávamos a descobrir uma realidade inteiramente nova. A chegada da Olívia transformou nossos horários, nossas preocupações, nossa casa e a maneira como passamos a enxergar o mundo.
A paternidade possui uma rotina que, observada de fora, pode parecer bastante monótona. Trocar fraldas, preparar refeições, dar banho, colocar para dormir, acordar durante a noite, repetir as mesmas brincadeiras e dedicar boa parte do dia aos cuidados de alguém que depende inteiramente de nós.
Há cansaço, naturalmente. Existem noites difíceis, preocupações e momentos nos quais precisamos deixar nossas próprias vontades em segundo plano.
Mas existe também uma beleza que eu jamais havia experimentado dessa maneira.
Olívia consegue encontrar alegria nas coisas mais simples. Aquilo que para nós já se tornou habitual ainda é motivo de descoberta para ela. Um gesto, uma brincadeira ou uma pequena demonstração de carinho podem despertar um entusiasmo que nós, adultos, muitas vezes já não conseguimos experimentar.
E percebo que, enquanto minha filha descobre o mundo, eu tenho a oportunidade de redescobri-lo através dela.
A reflexão de Chesterton me fez compreender algo que venho vivendo ao longo desses doze meses: a repetição não precisa significar ausência de novidade, assim como a rotina não precisa significar ausência de beleza.
Talvez a monotonia não esteja necessariamente naquilo que fazemos, mas na maneira como passamos a olhar para o que fazemos.
Foi inevitável relacionar essa descoberta aos ensinamentos de São Josemaria Escrivá, cuja espiritualidade sempre me chamou a atenção pela valorização da santidade nas atividades ordinárias.
Em Caminho, no ponto 815, o santo escreve:
“Queres de verdade ser santo? Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes.”
São Josemaria nos recorda que a santidade não está reservada aos grandes acontecimentos. Ela também pode ser buscada no trabalho, no cuidado com a família, no cumprimento das responsabilidades e nos pequenos deveres que se repetem diariamente.
Hoje consigo compreender esse ensinamento de maneira muito mais concreta.
Cuidar da Olívia não é apenas cumprir uma responsabilidade de pai. Cada gesto pode se tornar uma oportunidade de amar, de exercitar a paciência, de aprender a renunciar a mim mesmo e de buscar a santidade dentro da minha própria casa.
Isso não significa que todas as tarefas sejam agradáveis ou que eu consiga realizá-las sempre da melhor maneira. Tenho minhas limitações, perco a paciência, fico cansado e certamente ainda tenho muito a aprender.
Mas talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores oportunidades que Deus me oferece.
Há alguns tempo, escrevi aqui no blog um texto chamado O peso do exemplo, no qual contei sobre o hábito que eu e Graziele cultivamos de rezar antes das refeições. Mesmo tão pequena, Olívia já havia começado a juntar suas mãozinhas ao final das orações.
Naquela ocasião, refleti sobre nossa responsabilidade de transmitir a fé através dos exemplos cotidianos. Hoje, pensando em Chesterton e São Josemaria, percebo também o quanto minha própria filha tem me ensinado.
Enquanto procuramos ensiná-la a rezar, ela nos ajuda a compreender melhor o amor. Enquanto tentamos apresentar-lhe a beleza da criação, ela nos recorda de contemplar aquilo que já havíamos deixado de perceber. E enquanto nos esforçamos para conduzi-la pelos caminhos da fé, sua própria existência nos convida a uma intimidade maior com Deus.
É curioso perceber que alguém que ainda não consegue explicar o que é o amor pode nos ensinar tanto sobre ele.
Este primeiro ano também foi marcado por uma das maiores dores da minha vida: a despedida da minha mãe.
Sua ausência tornou ainda mais evidente a importância da família, da fé e dos valores que recebemos daqueles que vieram antes de nós. Hoje, ao celebrar a vida da minha filha, não consigo deixar de pensar também naquilo que minha mãe me transmitiu.
A fé que recebi dela é parte da herança que agora desejo entregar à Olívia. Mas a paternidade tem feito com que eu deixe de compreender certas verdades apenas intelectualmente e passe a experimentá-las de uma maneira muito mais profunda.
O amor gratuito, a entrega, a paciência, o sacrifício e a alegria de simplesmente estar na presença de alguém que amamos adquiriram outro significado.
Talvez eu esteja finalmente começando a compreender por que Deus não se cansa de fazer nascer o sol todas as manhãs.
Porque, quando amamos verdadeiramente, repetir deixa de ser apenas uma obrigação.
Queremos estar presentes novamente. Queremos cuidar novamente. Queremos abraçar novamente. E, mesmo depois de um dia difícil, encontramos motivos para desejar que o amanhã nos permita fazer tudo outra vez.
Hoje, minha pequena Olívia completa um ano.
Ainda temos muito a viver, muitos momentos para compartilhar e inúmeras coisas para aprender juntos. Espero ter sabedoria para educá-la, coragem para protegê-la e humildade para reconhecer meus erros. Acima de tudo, peço a Deus que me ajude a ser um pai cujo exemplo a aproxime d'Ele.
Sei que um dia sentirei saudade desta fase, inclusive dos pequenos trabalhos que hoje se repetem tantas vezes. Por isso, quero aprender a vivê-los com gratidão, sem permitir que a pressa me roube a beleza daquilo que tenho diante dos olhos.
Chesterton me ajudou a encontrar palavras para uma verdade que a Olívia vem me apresentando diariamente. São Josemaria me recordou que é justamente nessa vida ordinária que posso buscar a santidade. E Santo Agostinho me ajudou a compreender por que essas palavras encontraram tamanho eco dentro de mim.
Neste primeiro aniversário, o presente mais precioso talvez seja reconhecer o quanto minha filha já transformou a maneira como conheço e amo.
Minha mãe me apresentou Deus, mas é através da vida da Olívia que eu O tenho conhecido verdadeiramente.




