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Mãe

há 10 minutos
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Mãe

Uma das frases que me disseram enquanto eu vivia o luto de sua páscoa foi: “Infelizmente, essa dor nunca vai passar, Eliseu. Você não vai esquecer.” Essa foi uma das frases mais verdadeiras que já ouvi!


Hoje se completam seis meses desde aquele dia.


Ainda tenho pesadelos com a Grazi me acordando de madrugada, dizendo que a Santa Casa de Araraquara havia ligado, pedindo que nós fôssemos para lá com urgência.


Eu já sabia o motivo, mas custei a acreditar e digerir isso.


A frieza dos colaboradores daquele hospital, a indiferença deles ao nos dar uma notícia de tanta dor… Isso ainda me perturba. Em que momento eles deixaram de ter sentimentos humanos?


A Páscoa de 2026, para nós, foi diferente. Seu AVC abalou nossas estruturas. No dia 15, você já tinha tido alta, mãe, mas Deus a chamou para ficar naquele hospital por mais algumas horas, mesmo assim.


Eu confesso que ainda não entendo os motivos de tudo o que aconteceu, da sua luta contra o câncer, mas tenho certeza da Divina Providência em sua vida!


Eu vi sua sede de Cristo, eu vi sua sede de vida, mãe.


Logo que o câncer surgiu em nossas vidas, a Olívia também surgiu. Eu sei que ela e o Caio foram fortaleza. E me conforta a alma saber que você pôde ver o sorriso desses dois.


Se eu fosse avaliar pela lógica humana, você jamais deveria ter passado por tudo isso: toda a dor do tratamento, todo o medo e a angústia, toda a insegurança de ter que depender de um sistema de saúde cheio de falhas.


Eu sei o que você passou em vida! Eu sempre fui seu companheiro.


Eu me lembro das nossas noites sozinhos no sítio, com medo, enquanto meu pai aproveitava até altas horas na cidade para te trair com outros homens.


Eu me lembro de cada discussão, das vezes que você o trancou para fora de casa e ele quase arrombava as portas, das ameaças que ele te fazia, às vezes com uma faca em mãos.


Eu não me esquecerei jamais do quanto você o amou, apesar de tudo. E você também me ensinou a amá-lo, a não guardar mágoas ou rancor. Você me ensinou a perdoar, apesar de tudo.


Você me mostrou que o mal se combate com o bem! Você me apresentou Cristo e a esperança da vida eterna.


Minha mãe, você foi quem me mostrou que vale a pena dar a vida pela família, pelo casamento, pelos filhos…


Na lógica humana, você jamais deveria ter tido esse fim. Mas Deus provê o que é melhor para nós! Você me ensinou isso.


Quantas vezes, no fim de sua vida, tive que te lembrar dessas coisas nos momentos em que o medo e a aflição tomavam conta da alma.


Eu nunca derramei nenhuma lágrima perto de você em razão da doença, em razão do AVC, em razão desse câncer, porque você sempre foi minha fortaleza. Aquele era o momento de eu ser a sua!


Minha esposa sabe o quanto doeu em mim ver você passar por mais essa provação. Ela sabe os medos e desesperos que atacaram meu coração, ela conhece o mais profundo do meu ser e sabe o quanto eu quis o seu bem, a sua cura, mas, principalmente, que você tivesse forças até o último instante.


E você teve!


Não vou me esquecer de que você me pediu poucas coisas naquela última semana. Me pediu um padre para receber a Unção dos Enfermos, pediu para comungar o Corpo de Cristo e pediu que eu não abandonasse os seus pais enquanto eles vivessem, nem minha irmã.


Eu sempre fui o seu companheiro, mãe, mas, naquela última semana, você olhou em meus olhos e me chamou de “meu homem”. Eu cresci e me tornei homem, em grande parte, graças a você!


Tive a graça de te mostrar a mulher linda com quem me casei, a mesma que você tomou como sua própria filha. A mesma que gerou em seu ventre sua neta, linda como ela, mas com a personalidade igual à minha, a mesma personalidade com que você precisou lidar, a mesma personalidade que muitas vezes te deixava louca.


Que vida alegre, mãe! Apesar de tudo, uma vida feliz, cheia de Deus e de amor.


Você faz falta! Não só para mim, mas para todos que te conheceram, inclusive para a Olívia.


Em seus últimos meses, você repetia muito as palavras que Paulo disse aos filipenses: “Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro.” E você lucrou, mãe!


A única coisa que anseio é saber que você reside na glória de Deus, não no purgatório, pois apenas lá você não terá mais dores nem sofrimento algum.


É em Cristo que residia sua esperança, é Nele que você tinha conforto, por Ele você continuou, apesar de tudo!


Só consigo ver o quanto ele não escondeu sua gloriosa face de você, em momento algum, nem mesmo quando alguns da família de meu pai te deram as costas no momento do divórcio, nem quando alguns da sua família te deram as costas no momento da doença.


Deus não te desamparou quando fanáticos religiosos te condenaram ao inferno por ter encontrado outro homem para sua vida após o divórcio. Ele não te deixou só quando estes mesmos pensavam que seus filhos dariam errado na vida pelo pai que tiveram ou pela mãe “pecadora” que tiveram.


Hipócritas! Se não houver arrependimento a tempo, tenho certeza de que você não os verá no lugar onde você está, mãe!


Cristo não te abandonou, mesmo quando meu próprio pai te maldisse, mesmo quando ele desejou sua morte, mesmo quando ele disse que você merecia morrer de câncer pelo simples motivo de você não aceitar ser humilhada, traída e ignorada pelo homem que você amou.


Deus é bom o tempo todo, e você me mostrou isso!


Acho que é por essa razão que dói tanto não ter mais você aqui, não poder correr à sua casa nos momentos de ansiedade ou de medo, não poder desabafar com você sobre as minhas dificuldades à frente das responsabilidades que tomo, não poder mais compartilhar minhas alegrias com você e ver seu sorriso.


Este mês, a Olívia andou sozinha. Doeu não poder te mostrar. Não poder compartilhar essa alegria com você.


E como dói. Dói como naquele dia, ainda… Dói profundamente, de uma forma que transpassa a carne e atinge a alma, mas dói com a esperança da vida eterna!


Minha mãe, espero amar minha família como você amou a sua, amar a Cristo como você o amou, amar as pessoas como você sempre amou, ter sede de vida como você teve, combater o bom combate como você combateu, completar a carreira como você completou e, acima de tudo, guardar a fé como você guardou!


Te amo!

 
 
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